terça-feira, 13 de outubro de 2015

II FEIRA LITERÁRIA DO PARÁ - FliPA

Livros e reencontro
Aplaudo, em conseqüência, a Feira do Livro do Pará, que este ano fez Adalcinda Camarão a homenageada.

O senso comum tem afirmado que onde os livros são abundantes, menor é a necessidade de construir presídios. Ainda que tal afirmativa mereça restrições, é inegável a boa intenção que a provoca.

As crises, a atual e tantas quantas lhe tenham antecedido, além das que ainda serão criadas, raramente saíram (ou sairão) da cabeça dos que leram livros. Nem por isso consideramos a obra – impressa ou eletrônica – artigo dispensável. Assim, o uso que se faz do aprendido nos livros deve ser posto em questão.

Validada a afirmativa inicial, fácil se torna relacionar livros à liberdade. Se penitenciarias resultam em grande medida da ignorância, não é menor a probabilidade de que a construção de escolas seja indesejável para os que se aproveitam do baixo nível da educação.  Daí decorrem as permanentes tentativas de evitar que maior numero de pessoas tenha acesso à leitura.

É salutar, portanto, toda iniciativa de aproximar os livros dos que desejam ler. Em si mesmo meritória, qualquer decisão que atraia leitores habituais ou apenas potenciai deve ser destacada. Mas, ainda, quando homenageia autor ou autores cuja contribuição ao conhecimento de sua província pode ser importante passo para o conhecimento do universo. Temerária é a tentativa de saber do universal quando o local é negligenciado. Leon Tolstoi sabia disso. E o disse.

Imagine-se inédita a obra do escritor russo. Ter-se-ia perdido a oportunidade de refletir sobre a frase, que se tornou clássica e insistentemente referida, pela síntese perfeita da condição humana e da inserção do homem na sociedade. Seja o universo, seja o círculo de vizinhos mais próximos.

Aplaudo em conseqüência, a Feira do Livro do Pará, que este ano fez de Adalcinda Camarão a homenageada. Talvez nela encontremos belo exemplo da confluência do local e do universal. Bastaria mencionar que, transferida para os Estados Unidos da América do Norte, permaneceu marajoara (nascida em Muaná), ao mesmo tempo que cosmopolita.

A reunião de expressivos e respeitados escritores do Pará, dias 17 e 17 próximos, mais que um evento de caráter comercial, traz consigo a marca do interesse pela cultura e do culto à liberdade. A Fox Vídeo, cujo simpático e acolhedor espaço tem alimentado o amor aos livros, marca esta época de neoliberalismo voraz, como o anuncio de que é possível vencer obstáculos e oferecer perspectivas e esperança que aos poucos se vão diluindo, ao tilintar das moedas.

A compreensão do que há de universal, para além do sistema econômico que escraviza e pune, certamente será dada pela maioria dos participantes da FliPA. A mim, como a alguns outros, caberá tratar do que de mais próximo experimentamos. É assim que posso apresentar meu As casas que moram em mim, livro elaborado ao sabor das experiências vividas nos diversos lugares em que escrevi algum pedaço de minha história. Nem o nome de meus convivas foi esquecido – para o bem e para o mal. Aos que eu tiver a felicidade de reencontrar, desde logo apresento votos de boas vindas.


José Seráfico é professor da Universidade Federal do Amazonas (E-mail: jserafico@uol.com.br)

Artigo publicado no jornal O LIBERAL, edição de 13/10/2015 – Caderno Atualidades, seção Opinião, página 2.

Obra de minha autoria que será lançada na II FliPA