Sao João de Pirabas: Um dia com Rei Sebastião |
Pela parte da tarde
aconteceu palestra sob o tema: Sebastianismo, os vários aspectos da cultura em
homenagem ao Rei Sebastião. Em seguida apresentação de grupo folclórico do IFPA
com os personagens do imaginário amazônico. A lenda do Filho do Boto, O
Mapinguari, a Mãe D’água, a Matinta Perera, dentre outros personagens estiveram
participando do evento.
Em seguida a programação
ficou a cargo dos umbandistas, que mostraram um pouco de sua mística na Praça
do Complexo Cultural Maria Pagé.
Finalizando a noite estivemos visitando o terreiro do “Pai Mariano”, que recebe a mitológica figura do Rei Sebastião. Foi uma programação recheada de surpresas, e que gratas surpresas. Para nós visitantes, pouco acostumados com o ritual o ponto alto foi quando Rei Sebastião chegou, trazendo sua cobra de estimação, uma jiboia de aproximadamente 1,5 m, completamente dócil sob o domínio de seu amo.
Derly com a Jiboia de estimação do Rei Sebastião |
Nossa comitiva foi
recebida com muita alegria por sua majestade e sua mascote.
No dia 20 pela manhã nos dirigimos a até a Praia do Castelo, onde estão as imagens de Iemanjá, Seu Raimundo, e a pedra que representa a figura do Rei Sebastião. Grande multidão foi até a “pedra” para render homenagens aos seus “santos”.
A Morada do Rei Sebastião
viveu assim mais dia de festas e homenagens aos seus protetores.
Conta a lenda, que aos
visitantes não é permitido trazer nenhum objeto daquela praia sob o risco de
estar cometendo algum tipo de sacrilégio. As entidades sempre atentas na
proteção de seu patrimônio castiga o visitante desobediente com algum tipo de
constrangimento. Com nossa comitiva, não aconteceu nada de extraordinário em
nossa volta, a não ser um pequeno acidente com um de nossos membros.
Mais tarde descobriríamos
que um dos ocupantes do barco trazia uma garrafa com água e algumas pequenas
pedras tiradas do pé do Rei Sebastião.
Mas logo essa pessoa
tratou de tranquilizar a todos dizendo que trouxera as pedras com a permissão
da entidade suprema daquela praia: Rei Sebastião. E todos acreditaram.
Não podemos fazer juízo
de verdade a respeito de tudo que presenciamos. A história parece bonita,
simples e fabulosa, não é?
É história do povo do mar mesmo, gente da nossa gente!
O SEBASTIANISMO: A experiencia de uma noite co Rei Sebastião incentivou essa pesquisa.
O sebastianismo foi uma crença ou movimento profético que surgiu em Portugal em fins do século XVI como consequência do desaparecimento do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir, em 1578, que gerou uma crise de sucessão em Portugal. Acreditava-se que D. Sebastião voltaria para salvar Portugal dos problemas desencadeados pelo seu desaparecimento.
O desaparecimento de D. Sebastião
Notícias de que a
expedição militar de Dom Sebastião ao norte de África, a fim de conquistar
Marrocos, teria sido malsucedida, começaram a chegar a Portugal a partir de 10
de agosto de 1578. Primeiro procurou-se conter a informação, para evitar
maiores alardes entre os que tinham ficado em Portugal. Não se tinha total
certeza se o rei morrera e se o trono estava de facto vago, mas à medida que
aos poucos regressavam a Portugal os raros sobreviventes que tinham partido com
D. Sebastião gradualmente se compreendeu que o exército real havia sido
desbaratado pelos mouros em Alcácer-Quibir. Procurou-se então um sucessor para
o trono, a fim de “aquietar o povo que
bramava com magua do damno geral”.
Após o desaparecimento de D. Sebastião no norte da África, foi o seu tio-avô, o cardeal D. Henrique que subiu ao trono. D. Henrique contava já com 66 anos e era cardeal da Igreja Católica. A princípio, aceitou somente ser "governador e defensor do reino", mas eventualmente aceitou a Coroa e retirou-se do Mosteiro de Alcobaça, onde vivia, para ser coroado a 28 de agosto de 1578, 14 dias após a chegada a Portugal da primeira notícia do desaparecimento de Dom Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir. D. Henrique reinou somente por dois anos: morreu em janeiro de 1580.
Estandarte pessoal de D. Sebastião |
Morto D. Henrique, deu-se uma disputa pela sucessão ao trono português por falta de herdeiros diretos. Logo após a morte do cardeal-rei, um conselho de cinco governadores organizado por D. Henrique assumiu o governo do reino. Meses depois, quem reivindicou o trono e chegou a ser aclamado em algumas cidades foi o Prior do Crato, D. António, sobrinho de D. Henrique. Embora fosse filho bastardo do Infante D. Luís (portanto, neto do Rei D. Manuel I), D. António gozava de muita popularidade entre os portugueses, e havia combatido com Dom Sebastião em Alcácer-Quibir.
Mas a pretensão de D.
António foi infrutífera, acabando o trono nas mãos do seu primo, o rei Filipe
II do ramo espanhol da casa de Habsburgo, que derrotou D. António na Batalha de
Alcântara e forçou-o ao exílio.
Vários setores da
população não acreditavam na morte do rei, divulgando a lenda de que ele ainda
se encontrava vivo, apenas esperando o momento certo para voltar ao trono e
afastar o domínio estrangeiro. De certa maneira, isso ecoava uma crença no
chamado "rei encoberto", que povoara a Península Ibérica, e que se
manifestara fortemente durante as revoltas das "Germaníadas" em
Valência, durante o reinado do imperador Carlos V. Mesmo passados vários anos do desaparecimento
de Dom Sebastião, havia em Portugal esperança de que ele retornasse ao Reino.
OS
IMPOSTORES
Entretanto, foi com o
aparecimento dos chamados falsos "D. Sebastião" que aquilo que era
uma crença difusa acabou por ganhar contornos políticos mais definidos, e em
alguns casos, mais preocupantes para Madrid que, com o reinado de Dom Filipe II
(da Espanha, I em Portugal), era sede da União Ibérica. Vários pretendentes
tentaram passar-se pelo rei desaparecido e foram punidos com a morte. Um caso
emblemático foi o do “Confeiteiro de Madrigal”, um jovem de nome Gabriel de
Espinosa, que tinha mulher e filho, era bonito, sabia falar francês e alemão,
mas não português – assegurava que tinha esquecido no cativeiro. Foi enforcado.
O caso mais
emblemático e importante foi o do "Sebastião de Veneza", um calabrês,
Marco Túlio Cattizzone, que se fizera passar por D. Sebastião. Cattizzone tinha
mulher e filhos vivos, mas, ainda assim, foi tão convincente que, por pouco,
não escapou com vida, já que, exceto o fato de não falar português, houve
pessoas próximas a Dom Sebastião que garantiram estar na presença do próprio.
Mesmo assim, todos acabaram condenados à morte. O Sebastião de Veneza obteve o
apoio de vários fidalgos, letrados e religiosos portugueses, muitos deles
ligados a "corte" exilada de D. António, prior do Crato, que
disputara com Filipe II a sucessão da coroa portuguesa. Entre eles, João de
Castro (1551-1623), neto do homónimo navegador e vice-rei português da Índia
(1500-1548), que dedicou seus anos finais de vida a provar e defender a causa
sebastianista.
Gravura do Bandarra |
Foi João de Castro que deu forma letrada e constituiu um corpo mais teórico ao que antes era um conjunto de esperanças no retorno de um rei desejado.
Nos seus tratados,
João de Castro uniu a tradição exegética e apocalíptica do Livro de Daniel, o
Livro do Apocalipse, e os fundamentos proféticos da monarquia portuguesa. Entre
eles, o Milagre de Ourique, que ganhara novas cores com o Juramento de Afonso
Henriques, diploma forjado nos anos 1590 no mosteiro de Alcobaça, e, sobretudo,
as Trovas de Gonçalo Annes Bandarra, escritas antes de 1540.
Foi João de Castro
que editou e fez imprimir a primeira versão das Trovas que até então circulavam
manuscritas ou oralmente. No seu Paráfrase e Concordância, lançado na França em
1603, transcreveu e comentou os versos do sapateiro de Trancoso, buscando
mostrar como as trovas enigmáticas e proféticas só poderiam indicar a volta de
Sebastião I para retomar o trono português e expulsar os castelhanos. Os
escritos do Castro eram lidos e bem recebidos em especial pelos portugueses
insatisfeitos com o jugo estrangeiro, tendo sido mais tarde citados por outros
sebastianistas como Sebastião de Paiva em Tratado da Quinta Monarquia e Félix
da Costa em Exposição do XI, XII & XII Capítulos do IV Livro do Profeta
Esdras.
Outro sebastianista
importante foi Manuel Bocarro Francês, um cristão-novo, médico, matemático e
astrólogo – que, apesar do nome, era português. Este “procuraria comprovar o
destino da grandeza de Portugal através da interpretação combinada de textos,
integrando, através de seus escritos, um variado conjunto de estudiosos das
chamadas ‘ciências mágicas de seu tempo’”. Acabou por morrer em 1630 sem fazer
a profecia astrológica que se esperava dele.
A ideia de que D.
Sebastião aguardava numa ilha desconhecida o momento oportuno para se revelar
difundiu-se naturalmente. Alguns davam-lhe o nome de "Ilha
Encoberta", ao passo que outros diziam ser Antilia, lembrando as ilhas
míticas não identificadas que geógrafos, marinheiros e cartógrafos supunham
existir, ou alegavam ter avistado e até visitado.
Passados 62 anos após
a notícia do desaparecimento de Dom Sebastião, o culto ganhou novos contornos,
sobretudo após Portugal ter permanecido tanto tempo sob o comando de espanhóis,
durante o período da União Ibérica. No dia 1 de dezembro de 1640, um grupo de
conjurados chefiados pelo Duque de Bragança (futuro D. João IV, da dinastia de
Bragança), depôs em Lisboa o representante de Filipe III e restaurou a
independência de Portugal. Assim, o movimento tomou novas características por todo
o Império Português.
Padre António Vieira |
Houve uma adequação
da crença sebástica para uma ideologia restauracionista ao serviço da causa de
João IV. O jesuíta António Vieira foi um dos principais articuladores dessa
construção profética. Ainda que não tenha terminado as suas obras proféticas,
dedicou-se a elas de modo sistemático no fim da sua vida e já após o fim das
Guerra de Restauração (1640-1668) contra a Espanha, escrevendo, entre outros, a
Clavis Prophetaruam e a História do Futuro. Juntamente com as Trovas do
Bandarra, a História do Futuro é um dos textos sebastianistas mais importantes.
Na História, António Vieira antecipava um rei português que unisse o mundo sob
a sua autoridade temporal e a autoridade espiritual do Papa, inaugurando assim
um período de inigualável prosperidade que duraria até à vinda do Anticristo.
Acusado de heresia, foi preso pela Inquisição entre outubro de 1665 e dezembro
de 1667.
A Inquisição procurou
censurar o sebastianismo e confiscar quaisquer textos associados à crença,
nomeadamente as Trovas, a fim de impedir a sua difusão, mas com fracos
resultados. Em 1727 o Inquisidor-mor D. Veríssimo de Lencastre ordenou que o
epitáfio da campa do Bandarra fosse apagado.
Sobre a percepção
popular na época, a historiadora Laura de Mello e Souza ressalta a história de
Joana da Cruz, uma jovem pastora que foi degredada ao Brasil pela Inquisição
por suas visões heréticas. Numa delas, Joana teria visto o rei deitar-se sobre
seu colo e deixar-se catar por ela. Nas palavras da historiadora: "Da
mesma forma que afetivizava a religião, a mentalidade popular estabelecia
liames estreitos com o monarca desaparecido, mostrando como o sebastianismo era
vivido nas relações cotidianas, o monarca se apresentando tão piolhento como os
homens que habitavam seu reino."
A popularidade
latente do Sebastianismo persistiu ao longo do século XVIII. Em 1752, um
sebastianista previu que um terrível terramoto destruiria Lisboa no Dia de
Todos os Santos e quando o terremoto se deu três anos depois (1 de novembro de
1755), houve uma vaga de conversos ao sebastianismo.
O mais duro golpe
contra o sebastianismo foi desferido pela violenta perseguição durante o
governo do Marquês de Pombal, como parte de sua campanha contra os jesuítas,
que expulsou do país mediante acusação de terem (entre outras coisas) inventado
o sebastianismo e os versos de Bandarra, pela sua associação com António
Vieira. Em 1761, dois homens foram presos e entregues à Inquisição por
propagarem ideias sebastianistas.
Não obstante a
contínua condenação oficial, os versos do Bandarra mantiveram-se sempre em
edição, como uma forma de literatura popular. Em 1803 o Marquês de Nisa
patrocinou uma nova edição dos versos de Bandarra, em Nantes (carece de
fontes).
Durante as guerras
napoleónicas, a ocupação de Portugal pelas forças francesas sob o comando do
marechal Junot provocou um renascimento sebastianista. Algumas das profecias de
Bandarra foram vistas como confirmadas sobretudo pelo facto de o marechal Junot
ter ordenado a cobrança universal de impostos igualmente de todos os
portugueses, juntamente com a resultante agitação social. As invasões francesas
motivaram novas edições dos versos de Bandarra, em 1809, prefaciados por frei
José Leonardo da Silva, em 1815 e 1822.
D. Sebastião na Ilha Encoberta. Ilustração oitocentista Sueca |
O poeta Fernando Pessoa, na sua obra Mensagem, faz uma interpretação sebastianista da História de Portugal. O poema reinterpreta-a em função de uma ressurreição de um passado heróico:
“Screvo meu livro à beira-mágua.
Meu coração não tem que Ter.
Tenho meus olhos
quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás
viver.
Só te sentir e te
pensar
Meus dias vácuos
enche a doura
Mas quando quererás
voltar?
Quando é o Rei?
Quando é a Hora?
Quando virás a ser o
Christo
De a quem morreu o
falso Deus,
E a despertar do mal
que existo
A Nova Terra e os
Novos Céus?
Quando virás, ó
Encoberto?
Sonho das eras
portuguez,
Tornar-me mais que o
sopro incerto
De um grande anceio
que Deus fez?
Ah, quando quererás,
voltando,
Fazer minha esperança
amor?
Da nevoa e da saudade
quando?
Quando, meu sonho e
meu Senhor?”
A ideia de
nacionalismo relacionada ao sebastianismo também está presente na História de
Portugal, de Joaquim Pedro de Oliveira Martins, que escreveu que “Para nós, o
Sebastianismo é uma prova póstuma da nacionalidade. Na hora das agonias
derradeiras, os soluços violentos do povo traziam aos lábios a voz íntima e
proferiam de um modo eloquente e altissonante o pensamento natural orgânico”.
O rei D. Sebastião faz parte de muitos contos folclóricos portugueses, particularmente dos Açores; geralmente aparece montado num cavalo branco, às vezes seguido por companheiros. Por vezes referido como "o rei encantado", costumam envolver o monarca surgindo diante de um morador ou vários, em noites de lua cheia ou dias santos, como a festa de São João, e fazendo-lhes uma pergunta simples (como "quem reina?" ou "quem vive?"); uma resposta correta desencantaria o rei, ao passo que uma resposta errada resulta simplesmente no desaparecimento do rei, para reaparecer noutra ocasião.
SEBASTIANISMO NO BRASIL: O sebastianismo também influenciou certos movimentos brasileiros em todo o país, desde o Rio Grande do Sul até ao norte do Brasil, principalmente no início do século XX.
No nordeste destacam-se
dois movimentos sebastianistas no interior do estado de Pernambuco, que,
segundo a crítica aos movimentos na época, tiveram um caráter
político-religioso violento e com líderes fanáticos, que ludibriavam a
população de boa fé, já vítima dos problemas da seca. O primeiro, A Tragédia do
Rodeador, foi liderado por Silvestre José dos Santos que, em 1819, criou um
arraial em um local denominado Sítio da Pedra. Ele foi destruído em 1820 pelo
governador do estado, Luiz do Rego. Esta destruição, conhecida como Massacre de
Bonito, matou 91 pessoas e feriu mais de 100. Depois disso, mais de 200
mulheres e 300 crianças foram aprisionadas e mandadas para Recife.
O segundo movimento é
conhecido como A Tragédia da Pedra Bonita. Foi criada uma espécie de reino na
localidade de Pedra Bonita, na Serra Formosa, por João Antonio dos Santos. Como
o sucessor de João Antonio, João Ferreira, pregava que o rei D. Sebastião só
voltaria se a Pedra Bonita fosse banhada de sangue, foi promovido um grande
massacre no qual morreram 87 pessoas. Este arraial foi destruído pelo major
Manoel Pereira da Silva.
Este último movimento inspirou o escritor José Lins do Rego a escrever o romance Pedra Bonita, além do romance A Pedra do Reino de Ariano Suassuna.
O REI SEBASTIÃO NOS LENÇÕIS MARANHENSES; No Maranhão, há uma crença, especialmente na ilha dos Lençóis, no litoral do estado, de que o Rei D. Sebastião viveria nesta ilha, havendo muitas lendas em torno de sua figura, como se transformar em um touro negro encantado, com uma estrela na testa. O couro do boi do Bumba-meu-Boi, principalmente os de sotaque de zabumba e de pandeiros de costa de mão, das regiões de Cururupu e Guimarães, costuma ter a ponta dos chifres em metal dourado e traz, bordada na testa, uma estrela de ouro e jóias, em alusão à lenda. Religiões de matriz africana no estado, como o tambor de mina e o terecô, também tem especial relação com o rei Sebastião, que figura como um encantado.
O REI SEBASTIÃO E O SEBASTIANISMO EM SÃO JOÃO DE PIRABAS: Experiência vivida na noite do dia 19 e no dia 20 de janeiro de 2010, na cidade de São João de Pirabas e na Praia da Fortaleza, na Região Nordeste do Pará, me aguçou a curiosidade para conhecer um pouco mais do Sebastianismo. Muito interessante!
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sebastianismo (acesso em 21.01.2010)
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