| Antonio Pantoja: Apesar de não ser filho de Viseu, defende os interesses do povo de Fernandes Belo. |
Lendo o Jornal O Liberal, edição de 31.01.2010, despertou minha
atenção o artigo do professor Gaudêncio Torquato. Minha imaginação voou até
Viseu, município localizado na Região Nordeste de nosso Estado. Quanto infeliz
é aquele povo com seus administradores. E o poder judiciário? Que lamentável é
sua atuação. Levo ao conhecimento dos viseuenses o que pensa o professor da USP
a respeito do assunto: O que o povo precisa fazer para eliminar a corrupção e a
promiscuidade entre os poderes?.
"GAUDENCIO TORQUATO: Do povo, pelo povo e para o povo
O povo não é um detalhe nem uma abstração. A obviedade da
assertiva se faz necessária diante de tantas decisões que se tomam em nome do
povo e que examinadas quanto ao nexo, perdem, frequentemente, sentido.
Examine-se, por exemplo, a quantidade de leis, projetos, planos, programas e
medidas administrativas aprovadas e implantadas pelas esferas políticas e
governamentais do País. Quantas delas preenchem verdadeiramente o escopo
democrático definido pelo conceito “do
povo, pelo povo e para o povo”? Fosse o País administrado sob a rigidez
desse princípio basilar da democracia, teríamos seguramente maiores índices de
satisfação e bem estar social.
E como isso não ocorre o que vemos é uma intoxicação de ações
governamentais, caracterizadas pelas multiformes de corrupção que acabam
induzindo o povo a deseducação e a incultura. Na verdade, a cultura da
corrupção está profundamente impregnada na vida nacional.
Começo com a colonização, as capitanias hereditárias, o sistema de
mando que fatiou a geografia do País com os primeiros donatários. Um exame da
partilha política, Estado por Estado, há de mostrar que ainda existe a raiz
feudal, presente nos grupos familiares que dominam parcela apreciável do
sistema de poder.
Como se rompem as fortalezas feudais do País? Só há uma resposta:
Por meio do voto.
E como o voto pode redistribuir o poder, tornando viáveis os
ideais do povo? A resposta é: Melhorando-se sua qualidade, aperfeiçoando-se o critério
de decisão.
E como isso pode ser conseguido? A única resposta: pela via da
educação.
Um povo educado é o caminho da emancipação da Pátria. Por isso
mesmo, interessa a muitos donos do poder a manutenção do status quo. Nessas últimas
eleições, por exemplo, levas de prefeitos foram eleitos não porque apresentaram
as melhores propostas ou defenderam os ideais do povo. Ganharam porque
compraram votos, esvaziando cofres municipais, distribuindo benesses, abrindo
imensos buracos que procurarão tapar durante quatro anos de administrações
inócuas.
Sabe-se de municípios falidos, onde centenas de pessoas acenam com
cheques sem fundo, distribuídos por cabos eleitorais e prefeitos corruptos,
mancomunados com burocratas imorais, promotores e juízes tolerantes, ineptos e
também corruptos.
Incrível, porém verdadeiro: em muitas cidades quem paga a conta da
justiça (aluguel de casas de promotores e juízes) é a própria prefeitura. Será
que a moralidade do Ministério Público restringe-se às grandes capitais, onde
promotores destemidos e dignos cumprem com fidelidade sua missão de defender a
sociedade?
A relação simbiótica de corrupção entre política e justiça acaba
afastando o povo, ainda mais, dos poderes constituídos. O Brasil não aguenta
mais segurar a corrente criminosa que age nas malhas intestinas do poder,
unindo interesses individualistas de vereadores, prefeitos, deputados,
senadores, governadores, líderes locais, grupos familiares.
Há de se promover a retidão, a lealdade. Conta-se que o Duque Ai
perguntou a Confúcio: “Mestre, o que
devo fazer para conquistar o povo? ” Ele respondeu: “Promova homens retos e coloque-os acima dos tortos, e conquistará o
coração do povo”. Homens retos estão
rareando entre nós!
Há uma pequena rua em Londres, cheia de lojinhas que vendem os
mesmos tecidos, dos mesmos padrões e, incrível, pelo mesmo preço. Nem um
centavo a mais ou a menos. Um brasileiro ali foi pechinchar. Surpreendeu-se
quando o dono de uma das lojinhas recusou-se a vender o tecido. Ele vira o
brasileiro sair de outra loja. Apontou: a sua loja é aquela. Ali, naquela
ruazinha, cultivam-se a retidão, a lealdade, a honestidade. É exemplo de uma
cultura sem barganhas e emboscadas. Infelizmente, estamos anos-luz distantes
desse sonho.
A política corrompe o povo e este, inculto, acaba votando em
pessoas corruptas. Estamos dentro de um círculo vicioso. Mas não se deve perder
a esperança.
A fé acabará removendo montanhas. Com educação, nosso povo, lúcido
e racional, palmilhará caminhos mais retos.
Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e
consultor político".
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